sábado, 10 de março de 2012

You, The pretty reckless. Ando pela cozinha com uma caneca de café amargo e pouca roupa. Vejo o relógio marcar 18:10 e caminho com repulsa pelo quarto até a varanda de madeira em frente a vista estúpida. O céu em tons de azul e laranja ativa memórias comprimidas dentro de mim e interrompem repressões e contradições que neste momento parecem precárias quando comparadas a esta força momentânea entre lágrimas e coração pulsante desenfreado. Irá anoitecer em poucos minutos e agradava-me o cheiro da chuva vinda das nuvens carregadas ao sul entrando em contato com o solo. Lembro-me vagamente de percorrer este mesmo lugar para encontrá-lo meio debruçado sobre a madeira escura portando a mesma caneca que eu e fumando um cigarro aleatório depois de uma noite entre sussurros insanos e algumas dificuldades.
Em sua caneca havia uísque e o cheiro agregado ao dele causava-me um calor parecido com a vontade de mantê-lo entre dedos e sob olhar, pois eu permanecia a observar tudo o que era meu ou que de alguma forma voltaria a ser. Mas ele não estava aqui e eu deveria conviver com a sensação de falta e intransparência. Contentava-me com a visão dele em meus pensamentos, como agora, de meu homem branco e repleto de tatuagens por um dos braços, pretas, coloridas não. Tinha algumas pelas costas e não era completamente malhado, só forte, possuindo assim mãos grandes e um abraço protetor. Ele tinha cabelo curto, bagunçado e barba meio termo. Sempre vestia moletom ou jeans quando o encontrava, camisa regata ou social, geralmente em cores claras. Era naturalmente engraçado, mas não apelativo, e entrava no meu jogo como ninguém.
Sob a cama com lençóis bagunçados estava a caixa com cartas espalhadas e envelopes abertos. Meu coração, ali, estava aos cacos. Eu adorava como ele lembrava-me como era amar alguém indestrutível pelo lado de fora e como era difícil entrar em uma porta sem maçaneta. Ele havia me encontrado daquela forma, e que absurdo era segurá-lo comigo quando existia um mundo lá fora, mas eu era egoísta e orgulhava-me constantemente disso.
Desci as escadas após o pôr-do-sol e direcionei os passos a cozinha novamente, deixando a caneca vazia sobre um dos balcões. Pensei em fazer algo para comer acompanhado de vinho tinto, mas eu não o tinha mais para elogiar meus pequenos pratos vindos de receitas perdidas em livros de família antigos. Às vezes sorriamos, líamos um livro, assistíamos um filme qualquer na tv aberta e enquanto isso degustávamos vinho.
Sua presença era sempre quente e seus carinhos bem direcionados. Constantemente na varanda, nosso lugar preferido em toda a casa, ele mantinha-se debruçado enquanto eu acariciava suas costas com a ponta do indicador por toda extensão, fazendo desenhos abstratos, fitando o nada. Ele dizia que não existiria ninguém com o toque mais doce que o meu e isso me confortava.
Em uma manhã de abril, eu o deixei. Não levando nada comigo, apenas o coração. Pedaços mínimos quebrados e destroços recolhidos. Caminhei para uma nova experiência, repreendendo minha vontade de tê-lo sob os mesmos lençóis, mãos com os mesmos intuitos, pensamentos oscilatórios entre sentir e combater. Essa era a minha realidade.

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