segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Too close, Alex Claire. 

          Fazem alguns meses desde a última vez. Entreguei-me a condolências imaturas e desarmei minhas mãos. Desatei o nó, para ser mais precisa. Não estou a sofrer, pelo contrário. Há um vazio em meu peito que não sei definir. Não é saudade, compaixão e não há desespero. Eu apenas deixei de escrever por que, simplesmente, não há nada em meu peito. Estou vazia. E não sinto-me mal. Deveria preocupar-me o fato de ser, provavelmente, a única mulher feliz por estar oca por dentro? Não sei, mas também não sei como posso nomear esse tipo de... Sentimento, se é que posso chamá-lo assim, totalmente oposto. E não sei outras milhões de coisas. Por exemplo, não entendo de física quântica ou programação, e sou péssima cozinheira. Possivelmente, sou boa com textos cotidianos pois as Letras ajudaram-me a desenvolver a habilidade de escrita, como a depressão aos 17, e as longas sessões de terapia aos 18 por questões mal resolvidas e decisões involuntárias. No entanto, não arrependo-me. E por este, não aceitarei essas delongas. Afinal, fazem alguns meses desde a última vez. 

domingo, 23 de junho de 2013

Trunfos de cobre: 

Em meu coração não há espaço para pequenas tribulações ou tempestades silenciosas. Não há espaço para hipocrisia alheia ou suas mentiras sem fundamentos.  Não há espaço para suas palavras impregnadas do amargo de sua união com o demônio caricato da falta de alma. Possuo a luz que cega teus olhos, o egocentrismo amável de tuas madrugadas. Sou um anjo de luz com palavras envenenadas cruelmente para teus ouvidos surdos de amor. Em meus olhos escuros encontras teu sangue roubado pela ponta de meus dedos. Então imploras piedade e misericórdia, mas não tenho medo. Tua feição assustada me enobrece. E teu sofrimento faz-me sorrir como um patriota após a guerra vencida. Por ti sinto, apenas, pena. 

sábado, 22 de junho de 2013

Notas de uma resposta qualquer: 
Esperei ansiosamente sua iniciativa para contemplar minha nova vida e o mudara em mim. Meus olhos mais escuros, e o cabelo claro, a pele mais corada, as curvas delineadas a partir do ventre… É o que felicidade faz aos que anteriormente compartilhavam agonia. Sei que da espreita onde escolheras passar os meses de seu luto interior, vigia-me como um cão de caça encharcado do sangue das vagabundas que andaram provando de teu corpo insensato, procurando alma onde nunca existira. Descobri seu esconderijo e renego teus sussurros como os insultos que foram dirigidos a mim em teus pensamentos em nosso tempo. És nada, por hora. Ou nunca fostes. O verão parece mais quente, o calor em meus lençóis refletem a claridade de minhas palavras e a cartas secas. Ganhei uma espécie de resistência a indivíduos comuns, a estereótipos previamente marcados e ao uísque. Só não consegui ainda sobreviver as suas insistências e acolhedora presença para salvar-me do labirinto, doce e frio, onde me coloquei. Encontraste-me em apuros, e em apuros me deixaste. E pereço ao fim de meus dias a sua irritação diária e acumulo de notas escritas após nosso sexo naquela cidade romântica que não combina comigo; porém, submeto-me, por que o amo como amigo, e és por quem tenho imenso respeito e carinho, mas amo-o para tê-lo em minha cama também, quando o frio for a resposta de meus lamentos. E para quando sentir falta de braços ao meu redor. É só por ti que o sinto, e por ti que permanecerei a sentir. 

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Feliz dia dos namorados com sabor de nostalgia: Felizes são aqueles que beberam por amor e gritaram fúria e dor, que ligaram de madrugada acompanhados de vergonha após a ressaca. Felizes são os anos de saudade e paciência, os sentimentos ocultos e os que foram impedidos de serem vivenciados. Felizes são os buquês que não foram entregues e os textos escritos há anos para uma mesma pessoa. Felizes são as músicas enviadas com letras sutis, os arrependimentos seguidos de engasgos e lágrimas. Um brinde aos segredos não revelados, as palavras não ditas por medo e as relações não concretizadas. Um brinde aos “eu te amo” e os “oi” que perdemos no caminho e a angústia frequente, ao desconhecimento e a realidade imposta, as diferenças, a descrença, o frio na barriga, os sorrisos… E ao amor, que nunca deixou de ser amor, desde que o senti a primeira vez.

domingo, 9 de junho de 2013

Abismos inteiros de você.
          Abri os olhos para um teto estranho, meus olhos fitaram o lustre a cima do lugar onde, provavelmente, adormeci e fiquei observando-o por alguns segundos. Minha pele pinicava como em dias de sol escaldante ou frio absoluto, e minha voz não saia. Acordei com a impressão de tempo perdido, chama apagada e condolências passivas de um monólogo enfático sobre amor. Minha cabeça doeu ao imaginar e decidi que já era hora. Eu o vi passando por meus pensamentos e rapidamente retirei toda a possibilidade indevida, empurrei a ideia de encontrá-lo e, simplesmente, decidi não-me-mover. Senti que as palavras haviam se esgotado e outro tipo de tratamento seria aceito. Pedi redenção, perdão, fiz juras e promessas vagas para arrancá-lo de meio peito durante anos, e não fui aclamada, apenas acometida por mais desse amor desnecessário para a minha sobrevivência. E tão necessário. Contradição. Não sei responder seu olhar ou compreendê-lo; você é uma surpresa-enigma para mim, mas gosto de como soa. E como seu toque se faz em mim, agrada-me como me olhas e devora-me o cenho. E de repente, tudo o que era proibido, volta a ser aceito, como se a facilidade estivesse diante de meus olhos e não pudesse ver. E como me atrai a imprudência divina e a satisfação momentânea, mas… Até quando?

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Real love.

Insanidade. Loucura momentânea e o reflexo da realidade. Os anos passam, e continuo debruçada em sua atmosfera. Funciona como um labirinto do tempo, e não tenho saída. Estou presa, acorrentada e sozinha. Cumpro minha pena sem grandes lamentos, pois sei que em algum lugar desta cela, há uma chave. Estou acostumada com uma ou duas doses anuais de seu calor. Estou, sobretudo, acostumada com a realidade imposta e o sorriso fresco na manhã de inverno quando o desejo, imensamente, sob os mesmos lençóis que eu. Tola, eu sei. 
Vi você tentar e acreditar, às vezes com êxito, enquanto o aguardei e guardei. Repeti que estava destinada a estar contigo, que precisava de uma nova chance de contemplar o céu por um ângulo que não fosse o deste cubículo onde alojei-me. E fui posta a prova. Sai. Deixaste-me sair. E consegui, com medo, viver dias de miséria. E logo retornei ao teu ninho solitário, onde me abrigaste, no teu refúgio. Onde no coração há o teu emblema ao lado de nossas iniciais cravadas na superfície.

domingo, 2 de junho de 2013

Enquanto doer, ainda está vivo. Depois que os olhos param de brilhar e o coração não arde mais no peito por causa da falta, quer dizer que chegou ao fim.

quarta-feira, 27 de março de 2013

All fall down.
Senti-me um pouco indefesa. Estávamos no ápice do inverno em Vancouver e as luzes estavam opacas por causa da neve. A vista era branca quase um como um lençol sobre a cama. E as pessoas mal saiam de suas casas. A lareira era a única companheira do dia, as escolas estavam fechadas e não só elas como os armazens e as lojas de utilidades. Tudo parecia meio morto por fora e caloroso por dentro. 
Porém, eu e ele decidimos sair, enfrentar a tempestade atrás de algo tão forte quanto o café esquecido na cozinha desde Deus sabe quando. Estava enclausurada há tanto tempo que ao sentir o vento forte, fechei os olhos com medo e hesitei. Ele segurara minha mão e guiou-me pela calçada. Estava realmente frio. Meus olhos ardiam e o nariz estava tão vermelho quanto um morango maduro pronto pra ser digerido. Mas a tempestade não, esta não estava pronta pra fazer parte de mim.
Hesitei mais uma vez. E ele olhara assustado pra mim, talvez se perguntando porque eu havia parado tantas vezes no meio do caminho. Até que chamei sua atenção para o único estabelecimento aberto em nossa rua. Algo me puxara para dentro. E entramos. Ele sentara em minha frente e fizera seu pedido. Prestei atenção em seus movimentos e caricias em minha mão sobre a mesa. Os olhos estavam tão escuros, a boca em tom rosa quase vermelho e as pontas dos dedos também, era quase como um anjo caído. Ele cuidara de mim como uma garota indefesa, e cheguei a conclusão de que sou. E que ela está em mim. 
Ele continuava observando-me com paciência e descrença, haviam questões entre nós mal-resolvidas, deduzi. E permaneci sem mencionar palavras, mas nós sabíamos que elas estavam ali quase como sussurros no vento que entrava sempre que alguém saia ou entrada da cafeteria. O pedido chegara e ele apreciara o café como uísque, bebendo-o rapidamente. Perguntou-me se me interessava por um gole e hesitei mais uma vez, desculpando-me pela falta de atenção. Pagamos e saimos na direção da neve novamente, quando chegamos no nosso apartamento, me despi e fiquei como nos outros dias tanto quentes como frios. Deitei na cama em posição fetal e fitei por longos minutos nossa varanda. Tenho certeza que por um momento ele pensou , ou teve certeza, de que eu estava triste. Mas eu não estava. Olhava para ele e meu coração saltava, meus olhos enchiam de lágrimas, mas não de tristeza. Talvez eu estivesse doente, talvez de amor. E era.
Senti suas mãos percorrendo a extensão de meu corpo e a barba deslizando por minha bochecha. Entre sussurros, ele perguntara o que havia de errado, se era algo que ele havia feito ou se algo estava torturando-me. Respondi que não. Que não era nada. E sei exatamente o que essas palavras o provocavam. Hesitei sua mão de sair do toque e a beijei, soltando-a ao redor de mim depois, fazendo-o ficar tão próximo quanto estávamos antes de sair. Virei o corpo e fiquei olhando-o como uma águia, desvendando seu olhar, sua fome e questionamentos. Eu o amava. E sabia que ele também sentia. Haviam correntes elétricas em nossos dedos, que quando se tocavam… Quando apenas se encontravam, havia a colisão. O choque. E era quando eu tinha a certeza divina de que havíamos sido feitos um para o outro.

sábado, 16 de março de 2013

Escrevo acompanhada de dor. E depois há êxtase. Por um momento posso sentir o sangue quente correndo nas minhas veias, mas depois se petrifica e com o passar dos minutos viro gelo novamente. Esta é a minha redenção, sina e angústia. Entre a luz e as trevas. E não há cura. Escrever sobre me faz pensar, talvez como uma forma de compartilhar o que dentro de mim está. Fecho-me para o mundo, e alguns não entendem. Preciso de tempo. Sentir o cheiro da noite, o calor dos lençóis, ouvir um bom rock, apreciar o frio da varanda, tomar um bom vinho, desfalecer. Sozinha. Sinto-me independente de sentimentos, e não preciso de causas. Não se trata de uma doença propriamente dita. Fui feita para consertá-los. Não para amar. Eu os conserto, e eles vão. Nunca voltam. Exceto ele. Talvez eu não tenha o consertado e ele se moldara aos meus defeitos, por isso ainda habita cada partícula de minha insanidade, antes frequente, e compaixão. Ele dera um nome para minhas loucuras diárias e escrevera meu sobrenome em sua pele próxima ao coração. Conduziu-me as direções contrárias e o odiei várias vezes por ter me tornado quem sou, tão egocêntrica e frágil. Agora sou completamente dependente da madrugada em claro e das bobagens ditas por amor, sou sã e insana. Oscilo entre o inferno e o céu. Olho para ele e sinto como se pudesse amá-lo e matá-lo ao fim do dia. Sinto-me acometida novamente pelo complexo de Édipo, essa relação de ódio e amor tão próxima me fazendo ser essa mulher louca, trânsitando entre lucidez e enfermidade. O amor é um cão dos diabos, como Bukowski dizia. E ele estava certo. Foda-se o amor. Ou foda-me por amor.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



Âncora
Dilúvio. Tempestade lá fora e mãos congelando mesmo sob os lençóis. Quis ficar assim o dia todo e cochilei algumas vezes. Em minha cabeça havia um sino de igreja, batendo bem lá no alto da torre. Havia dor, mas não soube dizer especificamente onde, além do alto. Quis ficar só, mas não por falta de opções, era apenas o que eu desejava. Entre um resmungo e outro, adormeci ainda olhando-o pela brecha que deixei de propósito na porta. Em meu sonho, até então se tratava de um, eu estava no século passado, roupas apropriadas, vestidos longos, luvas e chapéu. Estava em um navio e meu marido era o capitão, estávamos ancorados esta noite e seguiríamos pela manhã. Porém, no meio da noite, ele desaparecera e o procurei pelo convés, mas não o encontrei. Encostei-me na madeira barroca que revestia a parte de fora e fiquei sentindo a brisa em meus cabelos até avistar um bote. Era maré alta e não entendi quem se atreveria a arriscar sua vida no mar. Continuei vasculhando as águas e mesmo na escuridão, encontrei um barco, de menor porte, próximo ao bote. E o vi dando adeus para uma mulher, continuei observando-o e meu coração palpitava mais rapidamente em meu peito, fazendo-me levar a mão direita sobre ele. De repente havia ficado mais frio que previ e tentei respirar fundo, não encontrando o ar. Meus dedos apertavam o colar com pingente em forma de âncora que ele me dera noite passada após nosso encontro com a ópera e as velas que trepidavam com o vento, dizendo-me as seguintes palavras: “Estou ancorado a ti, como este navio está preso a imensidão do mar.” Fechei os olhos e sinto ter desfalecido, minhas pernas não obedeciam meus comandos e meu corpo tornou-se um ângulo de 90° sobre o balcão. Então senti mãos em volta de minha cintura, apertando-me contra seu peito: "Eu estou aqui, amor." E acordei com as suas mãos em volta de meu corpo, seus lábios em meu ombro e pus-me a chorar, porque o amava. E porque estávamos ancorados um ao outro.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

8pm part IV: Happiness
Eu estava cansada, senti meu corpo dolorido e minha cabeça doia. Não lembro-me de quase nada, não sei o que tinha acontecido após ver Joseph e aquela garota. Tive medo de abrir os olhos e deparar-me com o hospital. Engoli em seco com a idéia e pressionei os lábios, deixando-os em uma linha. De repente uma música familiar tomou o “possível” cômodo onde eu estava e ainda de olhos fechados me senti aliviada por não ter conhecimento de algum hospital em que violões eram permitidos. “Happiness” de The Fray, identifiquei! Fui tomada por uma espécie de bondade e anestesia, afinal, essa era uma das músicas que mais escutei nos últimos anos.

Não resisti e abrir os olhos gradativamente, não havia luz a não ser a da rua e agradeci por isso. Sorri ainda por causa da música e o vi. Ele estava na varanda, com calça de moletom, sem camisa e me surpreendi com a quantidade de tatuagens em seu peitoral, braços e costas, os olhos semi-cerrados nas cordas do violão e ele estava fazendo o som (quase inaudível) da letra da música enquanto concentrava-se nas notas. A neve tinha parado e o céu estava meio aberto, haviam estrelas e não consegui ver os outros prédios. Era a visão mais bonita que eu já tinha apreciado na vida. Não por ser o cara-da-cafeteria, mas por tudo estar em harmonia. A luz, o violão, a música, e ele, sim, ele.

Fiquei observando-o e não conseguia parar de sorrir. Ele não me notou, eu estava deitada em seu sofá, enrolada em um lençol e aconchegada, sem sapatilhas e sobretudo. O jeans não incomodava, devia ser porque eu estava relaxada também. Quando ele parou, olhou na minha direção e senti vontade de fechar os olhos para que ele continuasse, mas pegou-me desprevinida. Eu queria que ele continuasse, mas não. Ele virou na minha direção e sorriu.

- Você estava me espionando. - Sussurrou colocando o violão de lado e fiz um biquinho.
- Não quero que pare. - Mordi o lábio e sorri.
- Como você está? - Ele cortou e franzi o cenho com um pouco de raiva.
- Não lembro o que aconteceu. - Disse, e era verdade. Com um impulso, levantei, sentando e juntando os pés.
- Não sei o que viu, mas ficou estranha. Eu estava a caminho da cafeteria para nosso encontro, havia me atrasado um pouco. Então vi você, estava pálida e não pensei duas vezes. - Senti uma pontada de preocupação em seu semblante e olhei para baixo.
- Vi meu ex com outra pessoa… - Meus olhos encheram de lágrimas. - Eu não havia me alimentado direito durante o dia e acho que fiquei nervosa… Obrigada. - Olhei para ele com vergonha, mas não me importei.
- Katherine Smith. - Ele sussurrou. - Não agradeça. - Ele trouxe a cadeira para perto de mim e segurou minhas mãos.
- Não sei seu nome. - Tentei sorrir, mas foi uma tentativa falha. Lágrimas começaram a brotar de meus olhos e ele gentilmente passara o polegar sobre minha bochecha.
- Jack Marshall, srta Smith. - Fiquei pensando como ele sabia meu nome, e então imaginei que já que ele levaria alguém para seu apartamento, verificaria pelo menos seus documentos.

Ele levantou, caminhou para algum lugar e observei mais uma vez seu corpo discretamente. Quando Jack voltou, estava segurando duas canecas e me ofereceu uma.
- Café? - Assenti e segurei a caneca. Ele voltara para a cadeira na minha frente e ficou observando-me como uma águia. Os olhos azuis dele eram escuros, os lábios em linha reta e assustei-me um pouco, admito.
- São tantas. - Apontei para seus braços e franzi o cenho novamente, tentando assimilar os desenhos.
- São… Perdi as contas. Mas você também tem. - Encolhi meus ombros e me assustei de novo olhando para meu pulso, para o desenho que ele havia reparado na primeira vez em que nos falamos.
- Tenho… algumas. - Tomei um gole do café e estremeci quando ele levantara e sentara ao meu lado, fiquei observando os olhos dele nos meus.
- Seu rosto tem algo… que eu gostaria de sentir. - Puxei o ar bruscamente, prendendo a respiração por segundos e tentei conter o êxtase de seu toque logo depois. O polegar passeava sobre a maçã de meu rosto e fechei os olhos. Joseph não costumava acariciar-me assim, era doce, apesar da aparência de Jack ser bruta. Soltei o ar, deixando-o fluir entre nós dois e abri os olhos, encontrando os dele.
- Eu tenho que ir. - Levantei do sofá, deixando-o em alerta. Coloquei a caneca sobre a mesinha central e calcei a sapatilhas. Olhei para ele meio aflita e peguei meu sobretudo.
- Você não precisa ir, Katherine. - Os olhos dele estavam passivos agora.
- Obrigada pelo que fez por mim, pelo café e pela música. - Ignorei-o. Ele levantou, caminhou na direção da porta comigo e encostou-me nela. - O que está fazendo? - Fiquei incrédula com tal reação.
- Não quero que vá, fique comigo. Você sequer sabe onde está, e você está fraca, atordoada, posso ver. - E ele estava certo.
- Vou dormir na casa de alguém que não conheço?
- Não precisamos dormir.
- O que? - Não acreditei que ele disse isso.
- Você pode ler para mim. E eu tocar pra você. - Ele sorriu. E o sorriso dele era mágico, dilacerou-me sem piedade.
- Sem toques. - Disse como uma espécie de acordo.
- Sem toques. - Sussurrou, assinando assim a minha carta de rendição.
8pm part III: You're missing it. 
Manhã de quarta-feira. Joseph saira tarde e já eram 5 da manhã quando consegui dormir depois de ler. Meus pensamentos penduravam palavras em seu varal a céu aberto e havia angústia. Não sei exatamente por qual motivo, talvez por causa de meu noivo de dois anos ter deixado-me por diferenças notáveis… Ou eu estava apenas nervosa por causa do cara-da-cafeteria. Não sei, mas bateu uma melancolia.

Levantei com algum esforço e coloquei meu ipad posicionado na estante para tocar. “If I told you” de Jason Walker inflamava meu coração, explosões de segundos e lágrimas prontas atrás de meus olhos. Katherine, controle-se. Repeti aleatóriamente, descrente de mim mesma. Meu dia se resumiu a cama e ao sofá, acompanhada daqueles biscoitos em forma de rosquinha que tanto amo e café bem quente. Eu queria uísque, mas também queria estar sóbria mais tarde. Desliguei o ipad, peguei um bloco de notas esquecido sobre minha mesa de estudo e escrevi algumas frases, como desculpas para aliviar meu interior. Larguei-o de volta na mesa e respirei fundo, comprimindo as lágrimas e sentei no sofá ligando a tv. Canais chatos: Filmes de ação, alguns reprisando lutas e desenhos, muitos desenhos. Desliguei e deitei, olhando pra o teto, inerte e perdida, adormecendo logo depois.

Acordei meio desesperada pensando na hora, já eram 6 da noite e nenhum sinal do dia ter ido embora. Ainda estava claro, apesar da neve. Enrolei-me no lençol de rede em meu sofá, deitei de lado e passei alguns segundos nessa posição, enroscando as pontas dos meus pés na almofada, aninhando-me no nada até ser tomada de alguma esperança. Respirei fundo e levantei-me. Merecia um banho, algo bom, que pudesse limpar as impurezas de sofrimento agregadas a mim.

O banho estava quente e passei alguns minutos sob a água. Peguei meu esfoliante preferido e esfreguei até que minha pele estivesse em um tom de rosa. Eu tinha raiva, mas não sabia exatamente do que. De Joseph? Era saudade da minha vida pacata no interior? Ou quando eu não precisava de ninguém para sentir-me mais… viva? Não sei. Sai do banho e vesti um jeans com uma camiseta cinza, peguei meu cachecol rubro e sobretudo preto… Sorrindo ao ver minhas sapatilhas vermelhas, lembrando do que o cara-da-cafeteria disse sobre elas. Não pensei duas vezes e as coloquei. Sai na noite de Nova Iorque com um destino certo.

Cheguei na cafeteria por volta das 7:45, tirei o mesmo livro da outra vez da bolsa e sentei. Com um tempo a garçonete apareceu em minha frente esperando, pedi um cappuccino e cookies, clichê. Não tirei o casaco, pois mesmo dentro da cafeteria, estava frio. Afrouxei o cachecol e continuei lendo. O tempo passou rápido e de vez em quando tirava a atenção do livro, para as pessoas. Ele não estava ali, mas havíamos combinado. O que tinha acontecido? Às 8:15, resolvi ir embora, ajeitei a roupa, levantei e coloquei o dinheiro em cima da mesa. “Boa noite, srta. Smith.” E sorri para Claire, a minha atendente preferida. Dei-me conta de que ela não estava ali na segunda e por isso o cara-da-cafeteria disse que ninguém sabia meu nome.

Sai meio desconsolada, porém, nada poderia deixar-me mais. Fiquei observando uma pequena fila se formando na frente de um estabelecimento que eu não conhecia na Avenida 3, próximo a um bar de sinuca e resolvi checar o que estava acontecendo. Chegando mais perto, vi Joseph e uma garota, meu coração foi ao chão. Engoli em seco e pensei que fosse desmaiar. Minha vista escureceu e não senti minhas pernas. De repente duas mãos apoiaram-me em seus braços e depois de dois segundos, apaguei.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“You shimmy-shook my boat leaving me stranded all in love on my own.” Náufragos. Éramos chiicoteados pelas ondas e estávamos a deriva quando nos encontramos. Tive a impressão que estavam puxando-te para baixo e ofereci minha mão. Seguras-te tão firme que me surpreendi pelos 10 segundos em que nos tocamos mesmo sob o frio. Teus olhos encontraram os meus e sufocaram minha agonia, procuramos as nuvens e cruzamos as estrelas, gálaxias e afins. Teu toque em minha pele era redenção. Salvamento peculiar e dedução imprópria, nos auto-conduzimos ao céu e ao inferno por tantas vezes que é impossível contar, manter sobre os dedos. Nos salvamos. Você a mim e eu a você. E preciso dizer-te, estamos ancorados, firmes, nesta ilha. A sós. Desfrutando de diferenças extremamente significantes um do outro, nos reconhecendo depois do naufragio… E não há nada que eu queira mais nesta vida.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Monólogo 
Limitações. Minhas limitações. Pensei em uma forma melhor de dissertá-las e questionei-me, quais são as minhas? O que me limitaria a prosseguir meus dias exaustivos e passos abalados frequentemente por obstáculos invisíveis. Talvez eu não esteja prestando a atenção necessária, ou eles estão lá, porque devem estar e... De alguma forma deveriam me machucar. Um pedaço ou outro, talvez. Talvez. Respiro e não de alívio, mas de descrença. Preciso respirar para saber que o ar está lá fora e que pode está fluindo aqui dentro também. Descrença é um bom termo para ajudar a explicar sacrifício e engano. Juntei todas as minhas pistas para encontrar a razão pela qual continuo andando e porque, mas porque ainda não parei? Porque não sentei e descansei um pouco? Explique-me. Não, pare! Não quero mais ouvir seus eventos exclusivos e escolhas mal feitas. Quero saber das minhas possibilidades, tenho algumas? Digo, há outro caminho? Desconfiei que não houvesse. Então soltarei sua mão, caminharei sozinha, enfrentarei os tais obstáculos e recuarei quando necessário. É assim que as pessoas independentes fazem, não? Aprenderei, acredito eu. Há alguma forma, não há? Diga-me! Descrença. Dê-me sua mão, de novo, meu coração para, de medo... E há angustia também. Beba, beba mais. Beba mais uns dois copos seguidos, entregue-se de novo... Como eu. Não diga mais nada, esqueça o que houve nos minutos atrás, esqueça! Não há nada... Estou bem. Pare de me questionar, estou bem. Aparentemente bem, externamente bem. Internamente aos prantos.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Vivo de oscilações, descompasso, felizes e infelizes construções emocionais e pouca convivência. Não dividi minha vida com muitos, a realidade é esta. Senti amor apenas uma vez, duas, contigo. E amor de verdade é isto que sinto, tenho certeza. Conservei o máximo de melhor que pude e o entreguei em tuas mãos, dividindo nas duas, muitas partes de mim que foram destruídas na primeira saliência entre amor e engano. Comportei-me mal no primeiro encontro e depois colhi o veneno em mim armazenado e fiz você. Tu eras agora a melhor e a pior parte de mim. Meu personagem maltratado e arrogante que andava na chuva sem proteção, que adoecia dias depois e que cuidava de si próprio no meio da madrugada com paliativos como os que usei para curar a dor “momentânea” de cinco longos anos. Não quero assustá-lo com as minhas vivências anteriores, quero apenas informá-lo sobre minha doença crônica da qual encontrei a solução em nove rápidos meses. Você e seus jeitos, tons e erros. Encontras-te um “eu” vagando em busca de coragem e acertaste tua flecha de ponta fina em meu peito, arrebatando-me, acometendo-me com teus segredos e viagens alucinatórias. Entreguei-me. E conduzes minha vida desde então.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Fui a um parque, alguns meses atrás. Você me mostrou carrossel, roda gigante e aqueles brinquedos que ficavam de cabeça pra baixo, e admito, me assustei um pouco. Estávamos tão felizes, você sorria como um garoto de cinco anos enquanto dividia algodão doce comigo reclamando da cor e do cheiro. Era o começo de uma história, da nossa. Não éramos o tipo de casal comum. Você me ensinou a ser eu mesma, libertar o que estava preso dentro de mim. De repente, eu estava segurando sua mão enquanto fazia minha primeira tatuagem. Você sorria quando eu apertava os olhos por causa da dor, e passou a noite acariciando por cima daqueles curativos-mal-feitos que costumam proteger. Até que houve o grande dia, você me apresentou seu apartamento, aquele do último andar que havia escolhido desde Deus sabe quando. Fiquei olhando você a noite toda, assustada e tão curiosa, o que estava mesmo por trás de todos aqueles desenhos sobre tua pele, sobre aqueles olhos? Não sei por qual motivo, deixei que tocasse minha mão, dormimos juntos, sem grandes toques, mas a noite havia sido mágica. Ouvir sua respiração era o meu último lance, minha escolha. No outro dia, dividimos café, compramos pão, escolhemos as mais diversas besteiras no supermercado, corremos pelos corredores, vesti suas roupas, reclamei do gosto amargo daquela cerveja e te observei sorrir. Dormimos juntos, de novo, cansados, abraçados, envolvidos. E descobri, finalmente, que estava completamente apaixonada por você. Descobri que o parque falaria mais tarde que nosso amor seria uma montanha russa, grandes lapsos de horror e aventura, e pequenos sussurros de freios e buzinas. Seriamos grandes e pequenos, seriamos fracos e fortes, seria eu e você. Pra sempre. E não me importando com o passado, são apenas trilhos enferrujados, prontos para serem trocados, na nossa grande montanha.  
Love is weakness
Encobri o esfarelar. Coração desalojado, mãos tocando a areia da praia, apertando os dedos e cortando a palma. Sentia-me indesejada. Busquei a garrafa do melhor vinho, caminhei descalça a chorar enquanto sentia meus pés invadindo as ondas. Haveria algum tipo de purificação para desamor? Algum tipo de libertação, talvez. Eu estava naquela cela, presa, longe de qualquer contato com a civilização. Tinha a chave, mas não ousava sair. Aquelas quatro paredes pareciam suficientes, até que meu pássaro azul saiu, voou. Olhei para a sombra que ele deixara em meu espelho e lá estava eu, em destroços. Enjoada, pálida, esgotada. Amor tornou-se fraqueza para mim. Perdi o brilho, o senso… Ele levara minha força e o olhar singelo, o abraço acalentador. Tornara-me escrava de seus prazeres momentâneos. Envolvia-me… E parecia amor! Apenas parecia, mas era? Não via mais verdade, ela também teria ido. Se alguém encontrá-lo esta tarde vagando por aí, por favor, digam: Ela abriu. E se foi. Para sempre.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Lucidez e insanidade
Desapareci no castanho de seu olhar aquela noite em que nos debruçamos sobre a sacada e ouvimos as ondas se chocando na areia, provocando espuma. Você lembra? Deitei sobre seus braços, aninhando-me em seu peitoral e seguindo o caminho de teu abdômen com a ponta dos dedos. Consolei-me em seu coração, ouvindo-o pronunciar, mesmo que de longe, em cada batida, um significado diferente para mim. Era a minha recreação preferida naquele momento, satisfazia-me, até que os lençóis em nossa casa de praia alugada para esta temporada não permitia abrigar mais teu corpo junto ao meu. Fomos aos poucos nos despedindo com o passar dos anos, perdendo-nos, igual as estrelas do mar na praia. Esquecemos de como o mar revolto lembrava nossas madrugadas em ópera e tormenta, verdadeira tempestade. Éramos assim, e éramos nós. Debrucei-me novamente, sozinha, no verão e fim de tarde, contemplando o crepúsculo... E você, bom, você não estava mais ali. Havia ido embora, feito malas, voltado pra cidade sem deixar pegadas, cartas... E me perdi, de novo, em minha completa insanidade... Pois minha lucidez era você.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

8pm (Parte 2)
 
Cheguei ao apartamento e fitei a bancada de estudo, analisando a folha que pairava desde sábado por ali esperando coragem de minha parte para escrever algo que meus pais se interessariam em saber. Sobre minhas semanas, talvez. Eles compraram esse apartamento e o carro estacionado em frente impondo o conforto que tinha em nossa casa de campo. Nunca me interessei sobre as fazendas de meu pai, apenas pelas cartas. Eles são tão adeptos quanto eu.
Sentei, escrevi frente e verso relatando minha rotina, a especialização e a mudança de emprego. Eu havia sido escalada para o corpo de estagiários da The 2nd Magazine, seriam cinco estagiários formados em jornalismo e especializados em algum dos milhares de interesses da revista. E era realmente o que eu queria fazer.
Acordei com o despertador marcando 8:14 da manhã e lembrei que era terça-feira. Levantei, e ainda meio sonolenta, lutei com os lençóis. Tomei um banho quente e rápido, peguei a carta em cima da mesa junto com meu casaco e luvas. Não levaria muito tempo para depositar a carta e eu precisava de outro café. Um que não fosse o meu.
Caminhei na direção da cafeteria mais próximo e sorri discretamente para o copo assim que o peguei com a atendente, lembrando-me do que acontecera na noite passada. Eu sequer sabia seu nome. Quão estranho isso soa? Muito, eu diria.
Passei pela principal avenida do bairro em direção ao meu apartamento novamente. Entrei no mesmo e franzi cenho vendo a bagunça. Peguei as roupas espalhadas e coloquei na máquina de lavar enquanto ainda saboreava meu café. A manhã passou rapidamente, e isso era bom. A arrumação tomou meu tempo e meus pensamentos também. Havia algo me incomodando, mas não sabia exatamente o que era.
Às 4:30 da tarde, Joseph apareceu. Deixando-me um pouco surpresa. Deu-me um beijo casto na testa e caminhou lentamente até o sofá, esparramando-se ali por e fitando minha expressão confusa. Não falamos nada, sentei ao seu lado e respirei fundo, aliviando a tensão que provavelmente sairia em minhas palavras. “Não sabia que iria aparecer.” Falei e logo depois deixei meus lábios em uma linha, engolindo em seco. “Pensei que havíamos combinado que as terças seriam nossas até que a The 2nd a chamasse.” Lembrei assim que o ouvi e levei uma das mãos na testa. “Desculpe, Joseph. Esqueci completamente.” Sorri com preocupação e levantei, pegando o controle da TV e procurando um canal que retirasse a tensão, que por agora, era maior. Ele envolveu as mãos ao meu redor e ficamos assistindo um filme qualquer a tarde toda. Quando terminamos, ele pediu comida chinesa e abrimos uma garrafa de vinho. Comemos e então não sussurrei: “Hoje foi divertido.” Ele sorrio pra mim com uma expressão indecifrável e continuei comendo forçadamente, sentindo o acumulo de sentimentos no meio de meu peito.  “Katherine, não acho que isso esteja funcionando.” Pausei o garfo na comida e o olhei incrédula. Respirei fundo e pisquei duas vezes para conseguir acreditar no que eu acabara de ouvir. “Estava prestes a tentar falar algo, mas você me surpreendeu.” Mordi o lábio inferior e continuei fitando-o. “Hoje… Foi consideravelmente um dia, entre muitos, em que conseguimos ficar a sós e bem. Não quero magoá-la, mas nós não somos um casal há muito tempo.” Ele disse, e os dois anos com Joseph vieram a tona, como nos conhecemos e quando ele me pediu em namoro e três meses depois em noivado. Olhei a aliança e retirei do meu dedo, entregando-o. “Não irá me magoar, Joseph. Estava prestes a dizer algo que soasse desta forma, você foi importante pra mim, cabe a nós sermos sinceros um com o outro. Obrigada pelos dois anos ao meu lado.” Ele segurou a aliança e me fez tremer enquanto escorregava o corpo no chão vindo na minha direção e dando outro beijo na minha testa. “Quero cuidar de você, Kath, mas quero, principalmente, que queira isso.” Sorri, singelamente e segurei seu braço, acariciando-o com a ponta dos dedos. “Eu quero, Joseph. Como amigos.”
Não demoramos muito, depois da parte consideravelmente tensa entre nós dois, Joseph soube contornar fazendo-me rir de suas piadas antigas, das quais sabia de cór e mesmo assim me provocavam sorrisos sinceros. Lavamos a louça juntos, ele me abraçou algumas vezes, talvez porque não acreditava que nós pudéssemos ser tão… Amigos. Uma hora depois, o acompanhei até a portaria e ele se foi levando meus dois anos, porém, eu não estava triste, só cansada.
Caminhei meio preguiçosa até o banheiro e tomei um banho demorado, logo após, deitei na cama e lembrei-me do livro na bolsa. O livro que o cara do café havia salvado. Comecei a ler e por um momento, não prestei atenção, lembrando-me daqueles olhos escuros… Até que adormeci.

sábado, 29 de dezembro de 2012

8 pm
Não tive medo daqueles olhos escuros enquanto ele observava-me dos pés a cabeça lendo um dos meus livros preferidos naquele café próximo ao meu apartamento. Engoli em seco quando o vi se aproximar de mim, sem tirar os olhos, e ir na direção do balcão para fazer seu (provável) pedido. Não pude ouvir, mas não fiz questão. Porém, os olhos dele me intrigavam muito. Balancei o rosto rápido e voltei para as palavras no livro, que para mim não faziam mais sentido algum. Decidi ir embora depois de mais ou menos quinze minutos. Vesti meu casaco e deixei dinheiro suficiente para o café. Coloquei o livro na bolsa de lado e segui para a porta. Olhei uma última vez para o local que ele havia escolhido e… ele não estava mais ali. Fiquei me perguntando se ele tinha ido embora e não notei depois de alongar minha leitura. Abri a porta e sem prestar muita atenção, andei até a esquina esbarrando em alguém. Em alguém, repeti. Meus olhos se voltaram para ele, na esquina, as mãos estavam tentando acender o cigarro após presenciar o meu esbarro trágico. O garoto pedia desculpas pelo que havia ocorrido e eu tentava acalmá-lo sem olhar para ele enquanto sacudia as mãos em meu casaco preto, cheio de neve. “Está tudo bem.” eu murmurei e o rapaz seguiu. Chequei minhas chaves no bolso e segui sem pousar meus olhos sobre o cara da esquina. E do café.
Andando pela rua que dá acesso ao meu apartamento, sozinha, olhei para trás e vi um homem me seguindo. Entrei em pânico por exatos 20 segundos até ele chegar mais perto. Pensei que ia morrer, e de fato, devo ter morrido por outros exatos 20 segundos. “Você deixou cair.” Sussurrou. E era ele. Sim, o cara da esquina com cigarro na mão, e do café sem pedido (eu acho). “Você me assustou.” Disse, e era totalmente verdade. “Desculpe.” Seus olhos tinham chamas e fiquei observando-o enquanto manti a mão próxima a dele em cima do livro. Ambos segurando tanto o olhar, quanto minha leitura. Engoli em seco e quebrei a fixação. Tive a sensação de que o conhecia, mas não ousei soltar nenhuma palavra, eu não o conhecia. “Literatura inglesa, interessante.” Então ele soltou e tremi. “É uma das obras obrigatórias. Obrigada.” Agradeci espontaneamente e guardei o livro na bolsa novamente. “Sei que gosta de seu café com leite morno e biscoitos, que fica bem com sapatilhas vermelhas e que gosta de literatura inglesa.” Congelei. Meus olhos com surpresa e minha boca seca. “E não posso esquecer… Você é atrapalhada.” Ele continuou e provavelmente aqueles 20 segundos de morte súbita voltaram. Não consegui dizer uma palavra, mas consegui andar. Deixe-o lá, mas voltei intrigada, franzindo a testa e respirando (meio) que normalmente. “Você é um maníaco que provoca esbarrões para devolver um pertence e depois molesta mulheres em algum parque da cidade?” Ele riu após minha pergunta e o olhei ainda mais intrigada. “Provavelmente não, mas poderia.” Ergui as sobrancelhas e cruzei os braços. “Te darei uma última tentativa.” Eu disse e não me arrependi depois de ouvir sua resposta. “Você vai no café todas as segundas e quartas, pede café e biscoitos, senta-se e lê algum livro ou artigo, não passa mais de meia hora e… se vai. Ninguém sabe seu nome, mas sabem que mora perto. Dificilmente fala algo diferente de “bom dia” ou “boa noite” para a atendente. E isto me intriga.” Diz enquanto levanta meu casaco no pulso e mostra minha tatuagem. Meus olhos verdes estão arregalados, espantados, confusos. Ele percebe, tenho certeza, mas não recuo. O que há nele? “Não sei muito sobre você.” Eu digo e ele se espanta. Virei o jogo. “Só que não tem um pedido, que entra no café e observa-me, que me assustou exatas… Três vezes e que… intriga-me também.” Ele sorri mais uma vez e engulo em seco novamente com aquele sorriso torto, seus olhos ficam tão bonitos quando sorri… “Vou deixá-la ir. Te vejo quarta, no café.” Ele sussurra e se ajeita, colocando as mãos no sobretudo preto. Olho pra cima e vejo a neve se atenuando. Eu sorrio e balanço o rosto caminhando na direção do meu apartamento mais uma vez, com meu livro dentro da bolsa, graças a ele.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Good ol' days
Era inverno em New York. Havia correria nas ruas para as compras dos presentes atrasados e muito champagne nas prateleiras dos supermercados esperando para serem ingeridos. Nunca gostei muito de espumante, eu e ele estávamos acostumados com vinho e uísque nas frequentes noites frias deste mês. Em todos os lugares do mundo haviam luzes, árvores enfeitadas e ceia, famílias alegres e extremamente solidárias (geralmente só nesta época do ano), mas eu e ele éramos solitários. Havia também congestionamento nas principais vias e o taxi permaneceu parado em torno de meia hora, e eu tinha pressa. Desci do mesmo, paguei o motorista e sai na neve em direção ao nosso duplex na rua 23. Eu estava bem agasalhada, sobretudo negro, cachecol mais claro, luvas rubras e mesmo assim, parecia que o frio penetrava em minha pele, deixando-me mais lenta e tremula. Não me incomodei, e carregando as sacolas, segui. Caminhei meio quilômetro, subi as escadas externas, passei pela primeira porta que dava para um corredor relativamente grande e subi as escadas até o nosso ninho. Ele não estava na sala e isso me espantou, pensei que o encontraria tomando uma cerveja (pois ele era mais habilidoso que eu com o frio) e assistindo a algum filme de ação, sem camisa e despojado no sofá, mas não. Ele não estava lá. Coloquei as compras em cima do balcão da cozinha e tirei o sobretudo enquanto o procurava na sala, banheiro social… e no quarto. Lá estava ele a olhar-me, aqueles olhos como pedras escuras com um mínimo diamante reluzente no meio. A cerveja estava na cabeceira, como previ que estaria ingerindo, as pernas abertas provavelmente a minha espera para preencher o espaço existente e as mãos pousadas uma no peitoral e a outra nos lençóis. Coloquei o casaco em cima da cômoda e sorri para ele enquanto desenlaçava o cachecol. Não falamos nada por alguns segundos, e não precisaríamos. Éramos desses casais que não precisavam falar, os olhares insinuavam o suficiente.
Parei em frente a cama e observando-o como a moças dos romances clichês, baixei o olhar e sorri. Não era timidez, era vontade. As tatuagens em seu corpo chamavam-me para perto como imãs onde os pares estavam em minha pele, era inacreditável. Estávamos juntos, morando em um mesmo apartamento e sempre havia isso tipo de saudade constante de seus braços ao redor de mim, de sua pele sobre a minha, dos arrepios frequentes de seus lábios em meu pescoço e do sentimento imposto, contrário e literalmente invocado de dentro para fora com força imperceptível.
Inclinei-me em sua direção, encaixando-me entre suas pernas e deslizei minhas mãos pelos seus braços, dedilhando seus ombros e aproximando meu rosto do dele lentamente, e havia uma expectativa grande em seu olhar. Deslizei os lábios pelos dele e senti suas mãos espalmadas em minhas costas, desenhando minha lombar e subindo pelo meio da mesma, deixando-me levemente desconfortável entre arrepios. Estava começando nosso enlace, oração e prece, a ligação e a raiva, a compaixão e a dor. Ele era meu crime.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Ele olhou pra mim e de repente senti um calafrio seguindo de minha lombar até a nuca, impedindo-me de respirar. Os dedos dele deslizavam pela cordas da guitarra e ele olhava nos meus olhos enquanto cantava o verso “Iluminate my blue winter” e tremi. Não tirei os olhos dos seus e a minha boca estava levemente entreaberta enquanto o observava. Desejei estar próxima o suficiente para tocar sua mão e tirar o microfone de próximo de seus lábios, deixando os meus ligados aos dele, vendo minhas mãos escorregarem pelo seu braço tatuado e gostaria de contar quantas haviam sido feitas também. Fechei os olhos sentindo a voz dele consumir-me, deixando-me absorta e engoli em seco. Uma boa taça de vinho cairia bem nesse momento; abri os olhos e ele ainda estava olhando pra mim, era uma espécie de hipnose. Joseph atrapalhara minha entusiasmada contemplação e ofereceu sua dose de uísque, peguei e tomei a mesma em um único gole, deixando-o meio surpreso com minha atitude. Pedi licença para o mesmo e caminhei no meio da multidão em direção a saída para atender meu celular, então ouvi a música parar, e parei junto com a mesma. Sua voz foi como um suspiro no microfone, cantando o verso “Don’t go away” de Oasis em capela. Franzi a testa e desliguei o celular desejando que quando eu virasse, não fosse para mim. Quando tornei na direção da multidão, lá estava ele olhando para mim, assim como toda a platéia e fiquei estagnada. O que ele estava tentando fazer?

domingo, 25 de novembro de 2012

Abri meus olhos pela manhã com a claridade da varanda sobre as cortinas e que, por sua vez, iluminavam o quarto. Encontrei-o sob os mesmos lençóis que eu, virei meu corpo na direção do dele e fiquei observando seu sono e o canto dos pássaros. No relógio marcava quase 5 da manhã e não lembro-me muito bem a que horas fui dormir após contemplar a noite mais mágica de minha vida ao seu lado.
Levantei-me, caminhei até a nossa varanda, digo nossa, porque aquele quarto abrigava conosco uma história que poucos livros poderiam descrever. E formávamos aquele tipo de casal que poucos escritores teriam coragem de juntar todos os cacos para formar o vaso chinês de que tanto almejavam. Histórias como a nossa são raras, tenho certeza.
Apoiei uma das mãos na madeira fria e espalmei a outra no ar, brincando com a brisa entre os dedos e soltando alguns sorrisos tão delicados quanto a mesma; até que senti seus dedos rodeando minha cintura, e seu corpo colando no meu consequentemente ao aproximar. Encolhi meus ombros e arrepiei com a barba em meu pescoço, deslizando-a como fazia todas as manhãs e nunca havia se tornado clichê em todos esses anos entre encontros e desencontros, discussões e desamor.
Inclinei meu rosto levemente para o lado enquanto sentia seus carinhos por minha pele e voltei a sorrir quando meus olhos pousaram nos dele, aqueles escuros de que estava acostumada a ver a alma e encontrar um caminho sem volta, e estava certa também, pertencíamos um ao outro, como nenhum outro saberia minhas vontades com melhor forma e desempenho. 

sábado, 24 de novembro de 2012

Quero contar-lhes sobre minha dor e coração gratuito com acesso para fichas como um orelhão velho na esquina. Talvez alguns não gostem muito de utensílios antigos e por esses e outros motivos sinto nostalgia de quando as pessoas costumavam contemplar o pôr-do-sol ou tricotar nas calçadas de suas casas enquanto cantarolavam um grande hino ou proseavam sobre a vida dos demais. Sinto falta de como o amor, em si, era tão satisfatório com um colar de lábios e o esfregar das pontinhas dos narizes nas bochechas, pela extensão do rosto... E enfim, de como costumávamos ser tão simples, eu diria. Existem tantas coisas das quais podemos mais descrever que sentir, não acham? Posso exemplificar, se quiserem, vejam só... Como as grandes histórias de nossos avós se fizeram presentes até hoje após uma troca de olhares? É uma questão, mas já parou para se perguntar mais profundamente porque hoje em dia o amor se tornou tão banal? Amor é sexo, sexo é amor, amor é estar na casa da namorada todos os dias, cumprimentar os pais e sorrir forçadamente quando nem tudo está bem, amor é casar. AMOR É CASAR. Ter uma grande festa e gastar mais de seis números após o cifrão apenas com bebidas. Amor não são mais votos de eternidade. Eternidade virou mês, lágrimas do mês e coração livre em dois ou três. Porém, nem sequer sei como consigo distinguir amor se nunca o vivi, mas senti, garanto. E ainda sinto. Estou apenas esperando o momento certo para fazê-lo acontecer, e acreditem, já esperei tanto. Não meses, mas anos. Se pudesse ser uma criança, já estava andando, falando, contando os arranhões nas pernas e brincando com os demais. Amor é crescer, não é? É correr, é aconchego, mas não o conheço. Já ouvi falar que os olhos brilham, que o coração acelera (e não seria minha arritmia), que as pernas tremem, que há vontade, tantas vontades. Porém, ainda espero. E gosto de esperar, se não se tornasse tão tardio para a prática. São pêsames.