Cá estou eu novamente a observá-lo dormir entre goles satisfatórios de café e micro pingos de leite pela manhã. Digo manhã porque está claro e não necessariamente há sol. Vê-lo dessa forma, meio embrulhado entre os lençóis deixa uma paz terna no ar após uma noite entre doses fartas de saudade saciada. Sorrio enquanto dormes, meu amor... Porque não só de vontade vivo.
Deixo a visão nostálgica para trás, viro-me em direção a vista de nossa pequena varanda debruçando-me sobre o balcão e depositando a caneca meio cheia por ali. Fecho os olhos e sinto a brisa tomar meu corpo de uma verdadeira paz, não aquela que sinto enquanto o observo, mas uma que me faz sentir completa. Só não digo mais um ou dois elogios a você com meus lábios próximos aos seus ouvidos, porque não quero perder a solidária imagem em minhas lembranças aguçadas com seu cheiro pelas poucas peças que visto.
Às vezes tenho medo que o barulho da máquina de escrever o assuste e o faça acordar, mas lembro-me de seu sono pesado e da sua adoração pela nossa espaçosa cama. Tenho vontade de ouvir "True love waits" em todas as manhãs frias como esta, quando o som do violão invade meus devaneios e oscilo em realidade e uma espécie de sonho ao mesmo tempo real.
Levanto uma, duas ou três vezes para tomar mais algum gole e observar fixamente cada onda quebrar enquanto o vento bagunça levemente meus cabelos, então sinto seu toque em minha cintura, mãos espalmadas sobre minha pele e você a puxar-me pra si como se fosse algum objeto de cobiça. E eu era. Suas atitudes eram tão claras que não havia dúvida.
Seu rosto em meu ombro e os lábios ensaiando algum carinho mais sutil em meu pescoço provocavam-me um desejo. Ou vários deles. Eu precisava tê-lo em sequências, não só em minha imaginação ou em momentos propícios como esse, eu necessitava de sua respiração em minha realidade, por mais fugaz que fosse, por mais temporária ou cheia de "asintonia". Talvez não estivéssemos prontos antes, mas agora, será que estamos? Talvez não agora, mas em alguns segundos após esse último suspiro? Não sei, e às vezes contento-me apenas com isso ou aquilo. Essa ou aquela palavra pronunciada, descrita ou até mesmo sentida esporadicamente. Talvez saudade, talvez desejo, talvez espera. Sim, espera. Ansiei esperá-lo por minha vida inteira, ou melhor, esperaria para sentir todo esse misto de amor. Quando digo amor, é sinônimo de intensidade, sentimento e todas essas abobrinhas que as pessoas acham sentir, que dizem sentir, mas só se concretizam quando acham histórias como a nossa e sobreviventes de grandes dilúvios... E então dizem: Ah, estes amam. Porque o amor, quando ligado ao mundo, é estabilidade, mas o amor não é isso. Empresários vivem de estabilidade, economistas, comerciantes, casais bem sucedidos profissionalmente e ganhando o necessário para viajar, pagar suas contas e almejar futilidades. E o amor? Forma-se dessas pequenas futilidades? Respondo por mim: Não.
Prefiro imaginar as carícias de agora a me pressionar em seu corpo de modo tão delicado. E conceber a nós dois esse pequeno momento de satisfação, de junção. Talvez não possamos ter mais e então restará a espera, mais uma, duas ou três vezes. Um, dois ou três anos até nos esbarrarmos novamente, estarmos frente a frente mais velhos, mais responsáveis, mais estabilizados e não haverá tempo para recuperar, não seremos mais jovens para cometer loucuras ou usufruir insanidades entre a mínima distância entre dois corpos, não haverá mais nada, apenas conformismo. Só ele.
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