Prólogo
Era verão. As nuvens carregadas ao fundo de minha vista indicavam que esta noite havia sido chuvosa. As gotas ainda escorriam lentamente pelas folhas das árvores e o sol já se preparava para nascer. Fiquei observando atento pelo tempo em que me manti próximo à varanda do quarto em que havíamos escolhido para acontecer. Este era o cenário excêntrico de que ela precisava e eu também, tenho que admitir. As janelas davam a sensação de um lugar amplo, as paredes brancas me tranqüilizavam e a grande varanda de madeira a minha frente, me deixava uma vontade estranha de que aquela noite pudesse se repetir mais algumas vezes. Era um lugar privilegiado para mim. Era, principalmente, um lugar convidativo.
O vento frio do começo da manhã começava a me conduzir para dentro, mesmo que a medida que os minutos fossem passando os primeiros raios de sol já conseguissem me aquecer. Percebi que talvez ficar a olhar o sol nascer era algo que nunca havia feito com prudência. Nunca havia visto também Mellanie tão corada em meus braços. Seus olhos escuros a me olhar com desejo e acredito que os meus desempenhavam o mesmo a olhá-la. Seu corpo ardendo sob o meu e o coração pulsando com vivacidade. Por momentos achei que podíamos ultrapassar os limites da realidade e adentrar em um sonho. Era quase isso, tenho certeza. O cheiro de terra molhada, devido à chuva rala lá fora, agregado ao cheiro dela transformou-se em um aroma que nunca irei esquecer enquanto viver. Senti-la aquela noite representava mais do que uma união de corpos, era a união de duas almas proibidas de se amar. E com isso o clima de perigo juntou-se perfeitamente com a casa abandonada de aspecto antigo, provavelmente em outros anos este mesmo quarto deve ter sido utilizado para o mesmo papel, a cama para o mesmo ato, os corações com o mesmo intuito, pois adormecer com a mulher que amo enquanto o céu toma a cor de um cinza azulado depois de uma noite como aquela era algo que podia compartilhar com muitos se quisesse, mas manter o segredo é gracioso e fiel.
A pele de Mellanie era branca e as maçãs do rosto meio rosadas, e toda a sua aparência era de anjo. Pude beijá-la com mais vontade não só os lábios, mas por em prática tudo em que meus pensamentos um dia oscilaram todo o meu desejo de tê-la e guardá-la no meio de meu peito, protegendo-a de tudo. Pude principalmente não só imaginar, como fazer.
Ontem havia velas acesas por todo lugar, os lençóis brancos da cama meio improvisados mal me preocupavam, o que de verdade me importava era quem estava sobre eles, serena a me olhar. Levei minhas mãos em seus braços, acariciando-a meio desajeitado e me coloquei entre suas pernas apenas deixando que meus lábios pudessem colar nos dela enquanto suas mãos brincavam sobre meus ombros e desciam por minhas costas, me deixando submerso em seu mundo e que agora fazia parte do meu. Desci meus lábios por seu pescoço, apalpei seu corpo e continuei beijando o que agora de certa forma me pertencia. Enquanto meu corpo desempenhava o ritual esperado, Mellanie sussurrava o quanto me amava e eu a dizia tudo o que poucas palavras pudessem descrever. Era realmente claro como ela reagia aos meus toques e palavras.
E agora, o que me restava era a sua feição adormecida na cama, o cabelo pouco bagunçado e os lábios ainda rosados me faziam querer ainda mais. Podia ficar observando seu sono por um tempo que não preciso determinar e não precisaria. Ela era tudo o que eu precisava e não podia ter. Uma vida e um sacrifício, tudo em um cálice.
Minutos depois meu corpo queria impulsionar-se sobre o dela novamente, mas acordá-la seria um crime que eu não queria cometer. Então decidi que ia esperar até que seus olhos escuros voltassem a me tomar a alma e o dedilhar me abduzisse de novo para meu vício preferido.
Voltei para o quarto, me deitei ao seu lado e continuei a observar sua face de anjo até que talvez ela sentisse meu olhar em seus sonhos. Éramos eu e ela, como nunca havia deixado de ser. O meu amor reprimido e seu último suspiro.
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