domingo, 16 de dezembro de 2012

Good ol' days
Era inverno em New York. Havia correria nas ruas para as compras dos presentes atrasados e muito champagne nas prateleiras dos supermercados esperando para serem ingeridos. Nunca gostei muito de espumante, eu e ele estávamos acostumados com vinho e uísque nas frequentes noites frias deste mês. Em todos os lugares do mundo haviam luzes, árvores enfeitadas e ceia, famílias alegres e extremamente solidárias (geralmente só nesta época do ano), mas eu e ele éramos solitários. Havia também congestionamento nas principais vias e o taxi permaneceu parado em torno de meia hora, e eu tinha pressa. Desci do mesmo, paguei o motorista e sai na neve em direção ao nosso duplex na rua 23. Eu estava bem agasalhada, sobretudo negro, cachecol mais claro, luvas rubras e mesmo assim, parecia que o frio penetrava em minha pele, deixando-me mais lenta e tremula. Não me incomodei, e carregando as sacolas, segui. Caminhei meio quilômetro, subi as escadas externas, passei pela primeira porta que dava para um corredor relativamente grande e subi as escadas até o nosso ninho. Ele não estava na sala e isso me espantou, pensei que o encontraria tomando uma cerveja (pois ele era mais habilidoso que eu com o frio) e assistindo a algum filme de ação, sem camisa e despojado no sofá, mas não. Ele não estava lá. Coloquei as compras em cima do balcão da cozinha e tirei o sobretudo enquanto o procurava na sala, banheiro social… e no quarto. Lá estava ele a olhar-me, aqueles olhos como pedras escuras com um mínimo diamante reluzente no meio. A cerveja estava na cabeceira, como previ que estaria ingerindo, as pernas abertas provavelmente a minha espera para preencher o espaço existente e as mãos pousadas uma no peitoral e a outra nos lençóis. Coloquei o casaco em cima da cômoda e sorri para ele enquanto desenlaçava o cachecol. Não falamos nada por alguns segundos, e não precisaríamos. Éramos desses casais que não precisavam falar, os olhares insinuavam o suficiente.
Parei em frente a cama e observando-o como a moças dos romances clichês, baixei o olhar e sorri. Não era timidez, era vontade. As tatuagens em seu corpo chamavam-me para perto como imãs onde os pares estavam em minha pele, era inacreditável. Estávamos juntos, morando em um mesmo apartamento e sempre havia isso tipo de saudade constante de seus braços ao redor de mim, de sua pele sobre a minha, dos arrepios frequentes de seus lábios em meu pescoço e do sentimento imposto, contrário e literalmente invocado de dentro para fora com força imperceptível.
Inclinei-me em sua direção, encaixando-me entre suas pernas e deslizei minhas mãos pelos seus braços, dedilhando seus ombros e aproximando meu rosto do dele lentamente, e havia uma expectativa grande em seu olhar. Deslizei os lábios pelos dele e senti suas mãos espalmadas em minhas costas, desenhando minha lombar e subindo pelo meio da mesma, deixando-me levemente desconfortável entre arrepios. Estava começando nosso enlace, oração e prece, a ligação e a raiva, a compaixão e a dor. Ele era meu crime.

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