Good ol' days
Era inverno em New York. Havia correria nas ruas para as
compras dos presentes atrasados e muito champagne nas prateleiras dos
supermercados esperando para serem ingeridos. Nunca gostei muito de
espumante, eu e ele estávamos acostumados com vinho e uísque nas
frequentes noites frias deste mês. Em todos os lugares do mundo haviam
luzes, árvores enfeitadas e ceia, famílias alegres e extremamente
solidárias (geralmente só nesta época do ano), mas eu e ele éramos
solitários. Havia também congestionamento nas principais vias e o taxi
permaneceu parado em torno de meia hora, e eu tinha pressa. Desci do
mesmo, paguei o motorista e sai na neve em direção ao nosso duplex na
rua 23. Eu estava bem agasalhada, sobretudo negro, cachecol mais claro,
luvas rubras e mesmo assim, parecia que o frio penetrava em minha pele,
deixando-me mais lenta e tremula. Não me incomodei, e carregando as
sacolas, segui. Caminhei meio quilômetro, subi as escadas externas,
passei pela primeira porta que dava para um corredor relativamente
grande e subi as escadas até o nosso ninho. Ele não estava na sala e
isso me espantou, pensei que o encontraria tomando uma cerveja (pois ele
era mais habilidoso que eu com o frio) e assistindo a algum filme de
ação, sem camisa e despojado no sofá, mas não. Ele não estava lá.
Coloquei as compras em cima do balcão da cozinha e tirei o sobretudo
enquanto o procurava na sala, banheiro social… e no quarto. Lá
estava ele a olhar-me, aqueles olhos como pedras escuras com um mínimo
diamante reluzente no meio. A cerveja estava na cabeceira, como previ
que estaria ingerindo, as pernas abertas provavelmente a minha espera
para preencher o espaço existente e as mãos pousadas uma no peitoral e a
outra nos lençóis. Coloquei o casaco em cima da cômoda e sorri para ele
enquanto desenlaçava o cachecol. Não falamos nada por alguns segundos, e
não precisaríamos. Éramos desses casais que não precisavam falar, os
olhares insinuavam o suficiente.
Parei em frente a cama e observando-o como a moças dos romances clichês, baixei o olhar e sorri. Não era timidez, era vontade.
As tatuagens em seu corpo chamavam-me para perto como imãs onde os
pares estavam em minha pele, era inacreditável. Estávamos juntos,
morando em um mesmo apartamento e sempre havia isso tipo de saudade
constante de seus braços ao redor de mim, de sua pele sobre a minha, dos
arrepios frequentes de seus lábios em meu pescoço e do sentimento
imposto, contrário e literalmente invocado de dentro para fora com força
imperceptível.
Inclinei-me em sua direção, encaixando-me entre suas pernas e
deslizei minhas mãos pelos seus braços, dedilhando seus ombros e
aproximando meu rosto do dele lentamente, e havia uma expectativa grande
em seu olhar. Deslizei os lábios pelos dele e senti suas mãos
espalmadas em minhas costas, desenhando minha lombar e subindo pelo meio
da mesma, deixando-me levemente desconfortável entre arrepios. Estava começando nosso enlace, oração e prece, a ligação e a raiva, a compaixão e a dor. Ele era meu crime.
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