quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

8pm (Parte 2)
 
Cheguei ao apartamento e fitei a bancada de estudo, analisando a folha que pairava desde sábado por ali esperando coragem de minha parte para escrever algo que meus pais se interessariam em saber. Sobre minhas semanas, talvez. Eles compraram esse apartamento e o carro estacionado em frente impondo o conforto que tinha em nossa casa de campo. Nunca me interessei sobre as fazendas de meu pai, apenas pelas cartas. Eles são tão adeptos quanto eu.
Sentei, escrevi frente e verso relatando minha rotina, a especialização e a mudança de emprego. Eu havia sido escalada para o corpo de estagiários da The 2nd Magazine, seriam cinco estagiários formados em jornalismo e especializados em algum dos milhares de interesses da revista. E era realmente o que eu queria fazer.
Acordei com o despertador marcando 8:14 da manhã e lembrei que era terça-feira. Levantei, e ainda meio sonolenta, lutei com os lençóis. Tomei um banho quente e rápido, peguei a carta em cima da mesa junto com meu casaco e luvas. Não levaria muito tempo para depositar a carta e eu precisava de outro café. Um que não fosse o meu.
Caminhei na direção da cafeteria mais próximo e sorri discretamente para o copo assim que o peguei com a atendente, lembrando-me do que acontecera na noite passada. Eu sequer sabia seu nome. Quão estranho isso soa? Muito, eu diria.
Passei pela principal avenida do bairro em direção ao meu apartamento novamente. Entrei no mesmo e franzi cenho vendo a bagunça. Peguei as roupas espalhadas e coloquei na máquina de lavar enquanto ainda saboreava meu café. A manhã passou rapidamente, e isso era bom. A arrumação tomou meu tempo e meus pensamentos também. Havia algo me incomodando, mas não sabia exatamente o que era.
Às 4:30 da tarde, Joseph apareceu. Deixando-me um pouco surpresa. Deu-me um beijo casto na testa e caminhou lentamente até o sofá, esparramando-se ali por e fitando minha expressão confusa. Não falamos nada, sentei ao seu lado e respirei fundo, aliviando a tensão que provavelmente sairia em minhas palavras. “Não sabia que iria aparecer.” Falei e logo depois deixei meus lábios em uma linha, engolindo em seco. “Pensei que havíamos combinado que as terças seriam nossas até que a The 2nd a chamasse.” Lembrei assim que o ouvi e levei uma das mãos na testa. “Desculpe, Joseph. Esqueci completamente.” Sorri com preocupação e levantei, pegando o controle da TV e procurando um canal que retirasse a tensão, que por agora, era maior. Ele envolveu as mãos ao meu redor e ficamos assistindo um filme qualquer a tarde toda. Quando terminamos, ele pediu comida chinesa e abrimos uma garrafa de vinho. Comemos e então não sussurrei: “Hoje foi divertido.” Ele sorrio pra mim com uma expressão indecifrável e continuei comendo forçadamente, sentindo o acumulo de sentimentos no meio de meu peito.  “Katherine, não acho que isso esteja funcionando.” Pausei o garfo na comida e o olhei incrédula. Respirei fundo e pisquei duas vezes para conseguir acreditar no que eu acabara de ouvir. “Estava prestes a tentar falar algo, mas você me surpreendeu.” Mordi o lábio inferior e continuei fitando-o. “Hoje… Foi consideravelmente um dia, entre muitos, em que conseguimos ficar a sós e bem. Não quero magoá-la, mas nós não somos um casal há muito tempo.” Ele disse, e os dois anos com Joseph vieram a tona, como nos conhecemos e quando ele me pediu em namoro e três meses depois em noivado. Olhei a aliança e retirei do meu dedo, entregando-o. “Não irá me magoar, Joseph. Estava prestes a dizer algo que soasse desta forma, você foi importante pra mim, cabe a nós sermos sinceros um com o outro. Obrigada pelos dois anos ao meu lado.” Ele segurou a aliança e me fez tremer enquanto escorregava o corpo no chão vindo na minha direção e dando outro beijo na minha testa. “Quero cuidar de você, Kath, mas quero, principalmente, que queira isso.” Sorri, singelamente e segurei seu braço, acariciando-o com a ponta dos dedos. “Eu quero, Joseph. Como amigos.”
Não demoramos muito, depois da parte consideravelmente tensa entre nós dois, Joseph soube contornar fazendo-me rir de suas piadas antigas, das quais sabia de cór e mesmo assim me provocavam sorrisos sinceros. Lavamos a louça juntos, ele me abraçou algumas vezes, talvez porque não acreditava que nós pudéssemos ser tão… Amigos. Uma hora depois, o acompanhei até a portaria e ele se foi levando meus dois anos, porém, eu não estava triste, só cansada.
Caminhei meio preguiçosa até o banheiro e tomei um banho demorado, logo após, deitei na cama e lembrei-me do livro na bolsa. O livro que o cara do café havia salvado. Comecei a ler e por um momento, não prestei atenção, lembrando-me daqueles olhos escuros… Até que adormeci.

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