quarta-feira, 27 de março de 2013

All fall down.
Senti-me um pouco indefesa. Estávamos no ápice do inverno em Vancouver e as luzes estavam opacas por causa da neve. A vista era branca quase um como um lençol sobre a cama. E as pessoas mal saiam de suas casas. A lareira era a única companheira do dia, as escolas estavam fechadas e não só elas como os armazens e as lojas de utilidades. Tudo parecia meio morto por fora e caloroso por dentro. 
Porém, eu e ele decidimos sair, enfrentar a tempestade atrás de algo tão forte quanto o café esquecido na cozinha desde Deus sabe quando. Estava enclausurada há tanto tempo que ao sentir o vento forte, fechei os olhos com medo e hesitei. Ele segurara minha mão e guiou-me pela calçada. Estava realmente frio. Meus olhos ardiam e o nariz estava tão vermelho quanto um morango maduro pronto pra ser digerido. Mas a tempestade não, esta não estava pronta pra fazer parte de mim.
Hesitei mais uma vez. E ele olhara assustado pra mim, talvez se perguntando porque eu havia parado tantas vezes no meio do caminho. Até que chamei sua atenção para o único estabelecimento aberto em nossa rua. Algo me puxara para dentro. E entramos. Ele sentara em minha frente e fizera seu pedido. Prestei atenção em seus movimentos e caricias em minha mão sobre a mesa. Os olhos estavam tão escuros, a boca em tom rosa quase vermelho e as pontas dos dedos também, era quase como um anjo caído. Ele cuidara de mim como uma garota indefesa, e cheguei a conclusão de que sou. E que ela está em mim. 
Ele continuava observando-me com paciência e descrença, haviam questões entre nós mal-resolvidas, deduzi. E permaneci sem mencionar palavras, mas nós sabíamos que elas estavam ali quase como sussurros no vento que entrava sempre que alguém saia ou entrada da cafeteria. O pedido chegara e ele apreciara o café como uísque, bebendo-o rapidamente. Perguntou-me se me interessava por um gole e hesitei mais uma vez, desculpando-me pela falta de atenção. Pagamos e saimos na direção da neve novamente, quando chegamos no nosso apartamento, me despi e fiquei como nos outros dias tanto quentes como frios. Deitei na cama em posição fetal e fitei por longos minutos nossa varanda. Tenho certeza que por um momento ele pensou , ou teve certeza, de que eu estava triste. Mas eu não estava. Olhava para ele e meu coração saltava, meus olhos enchiam de lágrimas, mas não de tristeza. Talvez eu estivesse doente, talvez de amor. E era.
Senti suas mãos percorrendo a extensão de meu corpo e a barba deslizando por minha bochecha. Entre sussurros, ele perguntara o que havia de errado, se era algo que ele havia feito ou se algo estava torturando-me. Respondi que não. Que não era nada. E sei exatamente o que essas palavras o provocavam. Hesitei sua mão de sair do toque e a beijei, soltando-a ao redor de mim depois, fazendo-o ficar tão próximo quanto estávamos antes de sair. Virei o corpo e fiquei olhando-o como uma águia, desvendando seu olhar, sua fome e questionamentos. Eu o amava. E sabia que ele também sentia. Haviam correntes elétricas em nossos dedos, que quando se tocavam… Quando apenas se encontravam, havia a colisão. O choque. E era quando eu tinha a certeza divina de que havíamos sido feitos um para o outro.

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