Capítulo 63: Desistência.
Levantei na manhã de quinta-feira logo após ele, peguei uma blusa qualquer, um casaco e procurei por dois segundos um cachecol esquecido em cima do sofá. Sai meio desenfreada enquanto ele, meio assustado, observava-me. Não peguei o elevador, desci as escadas uma por uma e deixei a porta de entrada aberta. Olhei para os dois lados da calçada e tomei uma direção. Alguns minutos depois, parei no “Café das onze”, pedi o de sempre e continuei a caminhada. Acenei para um táxi na avenida mais movimentada e indiquei para onde queria ir.
Fui deixada na saída da cidade, na estrada próxima a floresta. O motorista, com feição preocupada, chamou minha atenção: "Tem certeza que é este o local?" Sorri discreta e assenti. Então ele arrancou balançando o rosto em sinal negativo, e eu fiquei olhando o carro desaparecer. Desci o encostamento devagar e peguei um caminho mais curto. Depois de alguns outros minutos vi o meu píer secreto do lago da cidade vizinha.
Sorri e caminhei sobre o mesmo, direcionando-me para o lado, apoiando minhas mãos sobre a bancada e passando o indicador sobre as fissuras na madeira. O sol não estava forte, pelo contrário, havia brisa fria e por isso me encolhi. Respirei fundo e fechei os olhos ouvindo apenas os pássaros meio distantes cantarolando e o barulho da água meio agitada por causa do vento. Coloquei as mãos nos bolsos do casaco e encontrei papel e caneta. Continuei caminhando para a porta e sentei-me meio despojada apoiando o pequeno bloco sobre a perna e dissertei:
"Perdoe-me, mas não pelas juras de amor proferidas insanamente em nossos momentos ternos, mas pelas diversas vezes em que fui conduzida a deixar de falar-te como tua presença sobre os mesmos lençóis que eu trazem-me uma culpa incalculável. Perdoe-me, mas não pelas vezes em que gritei e falei o que não devia, mas pelos sussurros acompanhados de toques leves sobre tua pele fria. Perdoe-me, mas não pelas perdas, e sim pelas construções abomináveis que levantei em meus pensamentos sobre teus grandes sonhos. Impedi que você os realizasse. Perdoe-me, mas não pela espera, mas palavras impedidas de sair de meu ser. Perdoe-me pelas rosas não entregues, pela bebida não ingerida em noites de sexta em tua companhia, pelos livros não citados e pelas frases feitas que odeio . Não perdoe-me pelo tempo perdido, mas pelo sentimento encontrado dentro de si. Perdoe-me, meu amor, pelos sábados de cinema negados, pelas ligações não atendidas, pela carta mal feita, pelas palavras mal utilizadas, por minha falta de jeito. Perdoe-me pelo contrário, pelo correto, pelo incerto. Perdoe-me, sim, perdoe-me porque não suporto mais conviver com a culpa de ter encontrado um coração em chamas, quente, sobrenaturalmente suficiente e... estar deixando-o. Procure compreender-me sobre estas linhas traçadas de maneira errada, sobre esse sentimento preenchedor, acalentador. Desculpe-me pela falta de força, pelas atitudes não tomadas... E viva. Pois não há poeta que sobreviva a dor de um amor não descrito. E não serei a exceção."
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