segunda-feira, 30 de julho de 2012


Ocupação diária

Dividíamos o mesmo hall, portas trancadas, mas uma em frente à outra. Talvez o que nos separavam eram dois passos à frente, mas isso não quer dizer que eu tenha contado. Pelo olho mágico o via ainda de moletom buscar o jornal e sem muita cautela olhar para minha maçaneta com uma caneca quente de café em uma das mãos. Ele tinha certa habilidade para segurar o jornal e o café com uma só. Espiei, ainda pelo olho mágico e com um pouco de sofrimento, o apartamento meio bagunçado e poucos móveis. Antes de vê-lo fechar a porta, eu sempre girava a maçaneta devagar ainda observando-o e isso o fazia parar, sorrir e esperar-me sem pressa alguma. Sai, sorri arqueando as pontas dos lábios como um cumprimento sem graça e busquei o jornal da manhã no chão, que um garoto de aproximadamente dez anos deixava sempre às 5.

Ele também sorriu e de repente me imaginei falando duas palavras, mas reprimi mesmo que elas ficassem em minha cabeça: Bom dia, bom dia, bom dia. Amedrontador, sobretudo, mas as segurei na ponta de minha língua. Virei segurando o jornal e não olhei para trás. Fechei a porta e voltei a espioná-lo. Ele estava sorrindo de novo e fiquei, de modo bastante constrangedor, feliz. 

Voltei as minhas tarefas diárias mesmo sendo manhã de sábado, coloquei-me a frente da cafeteira e lá estávamos eu e ele novamente, meu companheiro diário, e com certeza posso nomeá-lo de algo grande. Meus pensamentos oscilavam, eu deveria saber o nome dele ou no que trabalha, talvez poderia ser uma detetive secundária em uma empresa qualquer para desvendar todos os mistérios alheios: Ei, você aí, sei que você é bancário e deve sua hipoteca há dois anos. Enfim, também seria algo grande, como meu café morno derramando pela minha falta de atenção. 

Talvez ele fosse desempregado. Não, com certeza não. A feição dele lembrava-me aqueles caras ricos que não ligam pra grana, gastam pouco e ajudam crianças carentes. Não, acho que não. Quase improvável, mas e se fosse? Quão engraçado seria? Lá estava eu tentando ser aquela detetive novamente até o telefone tocar e minha árvore genealógica de pistas ser quebrada. Era uma mensagem de minha irmã lembrando-me de sua despedida de solteira e implorando minha presença, mas nunca entendi porque essas festas são tão populares. Então, o vestido estava sobre o sofá, empacotado e bem cuidado, como ela havia deixado dias antes. Eu não me esqueceria, apenas se quisesse. 

Olhei para aquele vestido alguns minutos em meu corpo e, acompanhada de caretas, respirei fundo e encarei o esperado. Peguei a bolsa sobre a bancada da cozinha, as chaves e ouvi um ruído. Parei pasma, era ele? Arrumei os cabelos e corri pra porta, segurando a maçaneta novamente sem espionar sua intimidade em nosso hall. Abri, sai e fui surpreendida com seu olhar nos meus. Adormeci meus calcanhares por dois segundos e tremi, sorri tão nervosa que mal pude conter o espasmo. “Boa noite.” Ele disse. Engoli a seco e devo ter demorado mais que o normal para respondê-lo. “Boa noite.” 

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