8 pm
Não tive medo daqueles olhos escuros enquanto ele observava-me dos pés a cabeça lendo um dos meus livros preferidos naquele café próximo ao meu apartamento. Engoli em seco quando o vi se aproximar de mim, sem tirar os olhos, e ir na direção do balcão para fazer seu (provável) pedido. Não pude ouvir, mas não fiz questão. Porém, os olhos dele me intrigavam muito. Balancei o rosto rápido e voltei para as palavras no livro, que para mim não faziam mais sentido algum. Decidi ir embora depois de mais ou menos quinze minutos. Vesti meu casaco e deixei dinheiro suficiente para o café. Coloquei o livro na bolsa de lado e segui para a porta. Olhei uma última vez para o local que ele havia escolhido e… ele não estava mais ali. Fiquei me perguntando se ele tinha ido embora e não notei depois de alongar minha leitura. Abri a porta e sem prestar muita atenção, andei até a esquina esbarrando em alguém. Em alguém, repeti. Meus olhos se voltaram para ele, na esquina, as mãos estavam tentando acender o cigarro após presenciar o meu esbarro trágico. O garoto pedia desculpas pelo que havia ocorrido e eu tentava acalmá-lo sem olhar para ele enquanto sacudia as mãos em meu casaco preto, cheio de neve. “Está tudo bem.” eu murmurei e o rapaz seguiu. Chequei minhas chaves no bolso e segui sem pousar meus olhos sobre o cara da esquina. E do café.
Andando pela rua que dá acesso ao meu apartamento, sozinha, olhei para trás e vi um homem me seguindo. Entrei em pânico por exatos 20 segundos até ele chegar mais perto. Pensei que ia morrer, e de fato, devo ter morrido por outros exatos 20 segundos. “Você deixou cair.” Sussurrou. E era ele. Sim, o cara da esquina com cigarro na mão, e do café sem pedido (eu acho). “Você me assustou.” Disse, e era totalmente verdade. “Desculpe.” Seus olhos tinham chamas e fiquei observando-o enquanto manti a mão próxima a dele em cima do livro. Ambos segurando tanto o olhar, quanto minha leitura. Engoli em seco e quebrei a fixação. Tive a sensação de que o conhecia, mas não ousei soltar nenhuma palavra, eu não o conhecia. “Literatura inglesa, interessante.” Então ele soltou e tremi. “É uma das obras obrigatórias. Obrigada.” Agradeci espontaneamente e guardei o livro na bolsa novamente. “Sei que gosta de seu café com leite morno e biscoitos, que fica bem com sapatilhas vermelhas e que gosta de literatura inglesa.” Congelei. Meus olhos com surpresa e minha boca seca. “E não posso esquecer… Você é atrapalhada.” Ele continuou e provavelmente aqueles 20 segundos de morte súbita voltaram. Não consegui dizer uma palavra, mas consegui andar. Deixe-o lá, mas voltei intrigada, franzindo a testa e respirando (meio) que normalmente. “Você é um maníaco que provoca esbarrões para devolver um pertence e depois molesta mulheres em algum parque da cidade?” Ele riu após minha pergunta e o olhei ainda mais intrigada. “Provavelmente não, mas poderia.” Ergui as sobrancelhas e cruzei os braços. “Te darei uma última tentativa.” Eu disse e não me arrependi depois de ouvir sua resposta. “Você vai no café todas as segundas e quartas, pede café e biscoitos, senta-se e lê algum livro ou artigo, não passa mais de meia hora e… se vai. Ninguém sabe seu nome, mas sabem que mora perto. Dificilmente fala algo diferente de “bom dia” ou “boa noite” para a atendente. E isto me intriga.” Diz enquanto levanta meu casaco no pulso e mostra minha tatuagem. Meus olhos verdes estão arregalados, espantados, confusos. Ele percebe, tenho certeza, mas não recuo. O que há nele? “Não sei muito sobre você.” Eu digo e ele se espanta. Virei o jogo. “Só que não tem um pedido, que entra no café e observa-me, que me assustou exatas… Três vezes e que… intriga-me também.” Ele sorri mais uma vez e engulo em seco novamente com aquele sorriso torto, seus olhos ficam tão bonitos quando sorri… “Vou deixá-la ir. Te vejo quarta, no café.” Ele sussurra e se ajeita, colocando as mãos no sobretudo preto. Olho pra cima e vejo a neve se atenuando. Eu sorrio e balanço o rosto caminhando na direção do meu apartamento mais uma vez, com meu livro dentro da bolsa, graças a ele.
Andando pela rua que dá acesso ao meu apartamento, sozinha, olhei para trás e vi um homem me seguindo. Entrei em pânico por exatos 20 segundos até ele chegar mais perto. Pensei que ia morrer, e de fato, devo ter morrido por outros exatos 20 segundos. “Você deixou cair.” Sussurrou. E era ele. Sim, o cara da esquina com cigarro na mão, e do café sem pedido (eu acho). “Você me assustou.” Disse, e era totalmente verdade. “Desculpe.” Seus olhos tinham chamas e fiquei observando-o enquanto manti a mão próxima a dele em cima do livro. Ambos segurando tanto o olhar, quanto minha leitura. Engoli em seco e quebrei a fixação. Tive a sensação de que o conhecia, mas não ousei soltar nenhuma palavra, eu não o conhecia. “Literatura inglesa, interessante.” Então ele soltou e tremi. “É uma das obras obrigatórias. Obrigada.” Agradeci espontaneamente e guardei o livro na bolsa novamente. “Sei que gosta de seu café com leite morno e biscoitos, que fica bem com sapatilhas vermelhas e que gosta de literatura inglesa.” Congelei. Meus olhos com surpresa e minha boca seca. “E não posso esquecer… Você é atrapalhada.” Ele continuou e provavelmente aqueles 20 segundos de morte súbita voltaram. Não consegui dizer uma palavra, mas consegui andar. Deixe-o lá, mas voltei intrigada, franzindo a testa e respirando (meio) que normalmente. “Você é um maníaco que provoca esbarrões para devolver um pertence e depois molesta mulheres em algum parque da cidade?” Ele riu após minha pergunta e o olhei ainda mais intrigada. “Provavelmente não, mas poderia.” Ergui as sobrancelhas e cruzei os braços. “Te darei uma última tentativa.” Eu disse e não me arrependi depois de ouvir sua resposta. “Você vai no café todas as segundas e quartas, pede café e biscoitos, senta-se e lê algum livro ou artigo, não passa mais de meia hora e… se vai. Ninguém sabe seu nome, mas sabem que mora perto. Dificilmente fala algo diferente de “bom dia” ou “boa noite” para a atendente. E isto me intriga.” Diz enquanto levanta meu casaco no pulso e mostra minha tatuagem. Meus olhos verdes estão arregalados, espantados, confusos. Ele percebe, tenho certeza, mas não recuo. O que há nele? “Não sei muito sobre você.” Eu digo e ele se espanta. Virei o jogo. “Só que não tem um pedido, que entra no café e observa-me, que me assustou exatas… Três vezes e que… intriga-me também.” Ele sorri mais uma vez e engulo em seco novamente com aquele sorriso torto, seus olhos ficam tão bonitos quando sorri… “Vou deixá-la ir. Te vejo quarta, no café.” Ele sussurra e se ajeita, colocando as mãos no sobretudo preto. Olho pra cima e vejo a neve se atenuando. Eu sorrio e balanço o rosto caminhando na direção do meu apartamento mais uma vez, com meu livro dentro da bolsa, graças a ele.
Um comentário:
a cada dia seus textos ficam melhores.
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