Âncora
Dilúvio. Tempestade lá fora e mãos congelando mesmo sob os
lençóis. Quis ficar assim o dia todo e cochilei algumas vezes. Em minha cabeça
havia um sino de igreja, batendo bem lá no alto da torre. Havia dor, mas não
soube dizer especificamente onde, além do alto. Quis ficar só, mas não por
falta de opções, era apenas o que eu desejava. Entre um resmungo e outro,
adormeci ainda olhando-o pela brecha que deixei de propósito na porta. Em meu
sonho, até então se tratava de um, eu estava no século passado, roupas
apropriadas, vestidos longos, luvas e chapéu. Estava em um navio e meu marido
era o capitão, estávamos ancorados esta noite e seguiríamos pela manhã. Porém,
no meio da noite, ele desaparecera e o procurei pelo convés, mas não o
encontrei. Encostei-me na madeira barroca que revestia a parte de fora e fiquei
sentindo a brisa em meus cabelos até avistar um bote. Era maré alta e não
entendi quem se atreveria a arriscar sua vida no mar. Continuei vasculhando as
águas e mesmo na escuridão, encontrei um barco, de menor porte, próximo ao
bote. E o vi dando adeus para uma mulher, continuei observando-o e meu coração
palpitava mais rapidamente em meu peito, fazendo-me levar a mão direita sobre
ele. De repente havia ficado mais frio que previ e tentei respirar fundo, não
encontrando o ar. Meus dedos apertavam o colar com pingente em forma de âncora
que ele me dera noite passada após nosso encontro com a ópera e as velas que
trepidavam com o vento, dizendo-me as seguintes palavras: “Estou ancorado a ti,
como este navio está preso a imensidão do mar.” Fechei os olhos e sinto ter
desfalecido, minhas pernas não obedeciam meus comandos e meu corpo tornou-se um
ângulo de 90° sobre o balcão. Então senti mãos em volta de minha cintura,
apertando-me contra seu peito: "Eu estou aqui, amor." E acordei com
as suas mãos em volta de meu corpo, seus lábios em meu ombro e pus-me a chorar,
porque o amava. E porque estávamos ancorados um ao outro.
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