terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



Âncora
Dilúvio. Tempestade lá fora e mãos congelando mesmo sob os lençóis. Quis ficar assim o dia todo e cochilei algumas vezes. Em minha cabeça havia um sino de igreja, batendo bem lá no alto da torre. Havia dor, mas não soube dizer especificamente onde, além do alto. Quis ficar só, mas não por falta de opções, era apenas o que eu desejava. Entre um resmungo e outro, adormeci ainda olhando-o pela brecha que deixei de propósito na porta. Em meu sonho, até então se tratava de um, eu estava no século passado, roupas apropriadas, vestidos longos, luvas e chapéu. Estava em um navio e meu marido era o capitão, estávamos ancorados esta noite e seguiríamos pela manhã. Porém, no meio da noite, ele desaparecera e o procurei pelo convés, mas não o encontrei. Encostei-me na madeira barroca que revestia a parte de fora e fiquei sentindo a brisa em meus cabelos até avistar um bote. Era maré alta e não entendi quem se atreveria a arriscar sua vida no mar. Continuei vasculhando as águas e mesmo na escuridão, encontrei um barco, de menor porte, próximo ao bote. E o vi dando adeus para uma mulher, continuei observando-o e meu coração palpitava mais rapidamente em meu peito, fazendo-me levar a mão direita sobre ele. De repente havia ficado mais frio que previ e tentei respirar fundo, não encontrando o ar. Meus dedos apertavam o colar com pingente em forma de âncora que ele me dera noite passada após nosso encontro com a ópera e as velas que trepidavam com o vento, dizendo-me as seguintes palavras: “Estou ancorado a ti, como este navio está preso a imensidão do mar.” Fechei os olhos e sinto ter desfalecido, minhas pernas não obedeciam meus comandos e meu corpo tornou-se um ângulo de 90° sobre o balcão. Então senti mãos em volta de minha cintura, apertando-me contra seu peito: "Eu estou aqui, amor." E acordei com as suas mãos em volta de meu corpo, seus lábios em meu ombro e pus-me a chorar, porque o amava. E porque estávamos ancorados um ao outro.

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